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O POVOAMENTO AÇORIANO DO RIO GRANDE DO SUL

Célia Silva Jachemet

 

A fundação da Colônia do Sacramento, em 1680, já visava à instalação de uma redução portuguesa no território de Buenos Aires. Desde então se seguem muitos movimentos e lutas entre as coroas de Portugal e Espanha pela questão da posse das terras do extremo sul da América. Já em 1725 ilhéus fixaram-se em Torotama (Rio Grande), estabelecendo estâncias junto à foz do oceano, em reação ao avanço dos espanhóis.

Em 1737 foi fundado o Presídio do Porto do Rio Grande de São Pedro, na linha de defesa da Colônia do Sacramento, movimento liderado por José da Silva Paes. Na sequência, o Conselho Ultramarino sugere ao rei o transporte de casais das ilhas para o Presídio de São Pedro do Rio Grande.

No início dos anos quarenta do século XVIII, já se admitia, na corte de Dom João, permutar a Colônia do Sacramento pelo território dos Sete Povos das Missões.

Após o casamento de Fernando VI e Bárbara de Bragança, em 1746, açorianos pediam vênia ao rei para emigrarem para o Brasil, pelo excesso de população e escassez de alimentos nas ilhas. Em setembro do mesmo ano foi providenciado pelo Conselho Ultramarino o transporte de ilhéus da Ilha da Madeira e das ilhas dos Açores, de acordo com o plano idealizado por Alexandre de Gusmão, no início do século.

Seguiram-se outros documentos régios para ordenação das condições do transporte e assentamento dos ilhéus e em agosto de 1747, provisão estabelecia que deviam ser fundados lugares para grupos de sessenta casais e dado um quarto de légua em quadro, por cabeça de casal, em terras não dadas em sesmarias. Assim chegados, os casais estabeleceram-se em Santa Catarina.

Ainda no século XVII diversas levas de açorianos foram também para o Maranhão, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo e em 1750, mil casais açorianos foram para o Pará.  A partir deste mesmo ano é identificada a entrada de casais açorianos na Vila de São Pedro do Rio Grande.

A motivação dos açorianos para emigrarem para o sul do Brasil foi a pressão demográfica decorrente do fraco desempenho econômico das ilhas, escassez de produção de alimentos em razão do excedente populacional. Por outro lado as ilhas eram assoladas por cataclismas e erupções vulcânicas.

A viagem dos ilhéus era extremamente difícil, dadas as condições precárias de higiene, alimentos escassos, água apodrecida, promiscuidade. A maior parte dos passageiros adoecia e a mortalidade era grande. Os corpos eram jogados ao mar. Os que resistiam eram realmente guapos.

Em 13 de janeiro de 1750 foi celebrado o Tratado de Madrid entre Portugal e Espanha, estabelecendo as fronteiras naturais e, enfim, a Colônia do Sacramento é permutada pelos Sete Povos das Missões. O território então pertencente ao governo lusitano deveria ser povoado, e a população disponível para ir ao encontro da fronteira natural era aquela formada pelos casais açorianos. A Coroa recomendou ao governador da Ilha de Santa Catarina que só enviasse casais para o Rio Grande, depois de povoada a Ilha de Santa Catarina.

O Historiador Guilhermino César dá o ano de 1751 como o da vinda da primeira leva de açorianos para o Rio Grande de São Pedro e Borges Fortes consigna 1752 como o ano deste acontecimento.

Entre os anos de 1750 e 1754, cerca de 1273 açorianos aportaram na Vila de Rio Grande, em trânsito para as Missões. Em 1752, sessenta dos casais instalados na Vila do Rio Grande são conduzidos para o Porto de Viamão, na Sesmaria de Gerônimo de Ornellas. Seis anos mais tarde o lugar já é conhecido como Porto dos Casais, hoje Porto Alegre. Neste mesmo ano foi construído o forte Jesus, Maria, José. Santo Amaro foi fortificada e alguns ilhéus foram levados lá, para o trabalho de apoio. Em 16 de maio de 1756 a redução de São Miguel é destruída e as Missões são ocupadas.

Com o domínio espanhol no Rio Grande, os açorianos assentados em Povo Novo são transferidos para Maldonado e em 1763 quarenta famílias fundam a Vila de São Carlos, no Uruguai.

A população oriunda do Rio Grande ocupa a faixa litorânea dando origem a São José do Norte, Estreito, Tavares e Mostardas. Na dispersão, os ilhéus estabeleceram-se também em Santo Antônio da Patrulha, Capela Grande de Viamão e Porto dos Casais e investiram pelo Vale do Jacuí.

Em 1773 a Colônia do Sacramento volta ao domínio português e a expulsão dos espanhóis dá-se em 1° de abril de 1776.

Taquari é considerada a primeira cidade açoriana do Rio Grande do Sul e o governador José Marcelino de Figueiredo localizou casais nas freguesias de Sant’Ana, Santo Amaro, Porto Alegre, Mostardas e repartiu terras em Santo Antônio e no Estreito e, depois, em Piratini e Canguçu.

Em junho de 1801 é firmada a paz entre Portugal e Espanha, o que favoreceu a Portugal estender definitivamente as suas fronteiras no sul do Brasil. As Missões conquistadas, a fronteira oeste do RS dilatada. Os campos neutrais entre o Taim e o Chuí e a faixa de terra entre os rios Piratini e Jaguarão foram ocupados e as famílias açorianas rumavam ao Sete Povos.

Dessa forma, os açorianos e seus descendentes foram se expandindo, constituindo-se a mais numerosa força étnica povoadora do Rio Grande do Sul, comemorando-se no ano de 2012 duzentos e sessenta anos do povoamento açoriano no Estado.

 

Referência:

Espírito Santo, Miguel Frederico do: Açorianos no Sul do Brasil: da prata do Potosi ao Ouro das Gerais. In A Presença açoriana em Santo Antônio da Patrulha. Porto Alegre, EST, 1997, pág.16