Maria Roselaine da Cunha Santos(*)
A partir das grandes navegações, os rumos de nossa história foram modificados. Os oceanos, de obstáculos entre os povos passaram a ser um meio de comunicação entre o “Velho” e o “Novo Mundo”. Portugal foi buscar seu futuro através do oceano, pois precisava expandir seus domínios. Antes de outros Estados europeus alcançou sua estabilidade política, o reinado de D. Manuel (1495 – 1521) foi decisivo para firmarem-se comercialmente. Em 1746 D. João V assinou o documento em que ficava estabelecido o envio de casais açorianos (famílias) para povoar o sul do Brasil, o continente de Rio Grande de São Pedro. Estes casais receberam do governo poucos préstimos e adentraram o território sulino com coragem e fé.
No estilo de casas junto às calçadas, nas casas com eira e beira, no arroz com leite,no papo de anjo, nas danças como pezinho, chimarrita, e nas festas populares como a de São João, São Pedro, do Divino e tantas outras heranças culturais, percebemos a presença deste povoamento.
Ao fixar-se a terra e enterrar seus mortos, no período pré-histórico, o homem deixa de ser nômade, as mulheres passam a cuidar das plantações, semear, colher e certamente celebrar as colheitas, originam-se então as festas, muitas das quais chegam até nossos dias.
A Festa do Divino Espírito Santo certamente nos remete a este tempo, pois tem sua origem na cerimônia do “Panisgradilis” dos gregos, que a transmitem aos romanos e estes aos povos germânicos. No século XIII, na Alemanha, o Imperador Oto????I?n III a celebrou buscando arrecadar dinheiro para amenizar a miséria do povo alemão. Na França, havia uma organização sob ordem do Divino Espírito Santo para igualmente angariar fundos aos pobres. E em Portugal (Alenquer) foi introduzida pela Rainha Isabel, esposa de D. Diniz, mulher muito católica, que preocupava-se com a pobreza do povo, dava esmolas e foi buscar na Festa do Divino apoio financeiro para suas benfeitorias.
De Portugal continente foi levada aos Açores e chegou ao Brasil trazida pelos primeiros povoadores açorianos (1750 – 1770), através de sua fé religiosa e nos seus corações.
A Festa do Divino pode ser a festa da colheita, do agradecimento, da cura dos males e dores, do Bodo, da Cavalhada, da folia, dos festejos, pois nela há o “sagrado e o profano”.
Em todo o Brasil, a partir de maio começam as celebrações e comemorações voltadas ao Divino Espírito Santo, nos estados da Bahia, Rio de Janeiro, Goiás, Espírito Santo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul encontram-se vestígios desta folia, ora dentro da roupagem do Cristianismo, ora revestida com a mais pura característica folclórica regional.
Cidades como Criúva, Santo Antônio da patrulha, Osório, Taquari, Gravataí e na denominada metade sul do estado, Jaguarão, Piratini, Rio Grande, Pelotas e São Lourenço do Sul também a celebram.
Mas é em São Lourenço do Sul, na localidade chamada Boqueirão, encravada na encosta da Serra dos Tapes, 1° distrito do município e sede deste até 1890, que a encontramos surpreendentemente bem caracterizada.
A “Vila do Boqueirão” já registrava em 1850, quinhentos moradores e pertenceu ao município de Pelotas até 1884, como a maioria dos aldeamentos desenvolveu-se em torno de uma capela, dedicada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição????I? do Boqueirão, cuja data remonta ao ano de 1807. Em terras que pertenciam a Afonso Pereira Chaves e mais tarde a José da Costa Santos, cuja esposa Sra. Ana Joaquina Gonçalves dos Santos foi grande benfeitora desta irmandade. Ali fixaram-se primeiramente luso-açorianos, africanos, mais tarde imigrantes italianos (poucos) e a partir de 1858 alemães em considerável proporcionalidade. A atual igreja foi construída entre os anos de 1830 e 1868 e tem uma característica pelo menos curiosa, sua cúpula em estilo bizantino é pouco comum em templos católicos de nossa região. É nessa igreja e no seu entorno que se realiza há 119 anos a Festa do Divino Espírito Santo, hoje um registro histórico-étnico-cultural de seus povoadores, preservado pela comunidade de Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão.
A festa consiste na escolha do casal festeiro e da imperatriz de um ano para o outro, cavalgada e implantação do mastro em frente a igreja, quarenta dias antes da festa, visita às casas da localidade pela Bandeira do Divino durante trinta dias, instalação do império, novenas, procissão, benção do padre sobre os alimentos, missa festiva, coroação da imperatriz e na complementação seguem-se os comensais com almoço, festejos populares e baile de encerramento.
O culto do Divino Espírito Santo constituí-se no mais importante evento religioso nos Açores e há muito o que se falar de suas particularidades no Brasil, onde constitui-se fato de tal relevância, que o Ministro José Bonifácio de Andrade e Silva, ao escolher o título de Imperador ao Monarca Brasileiro, o fez em razão do povo estar mais acostumado ao nome de Imperador do que ao de Rei, referindo-se ao Imperador dos festejos da Festa do Divino Espírito Santo.
(*)Especialista em Geografia do Brasil Do Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas


São Lourenço do Sul, 27 de maio de 2007